Foram muitos ensaios e preparativos, a Escola de Samba Beija-Flor chega forte para a disputa do bicampeo-nato. Para brigar pelo título, a agremiação está apostando no enredo “Bembé”, assinado pelo carnavalesco João Vitor Araújo, que contará a história do maior candomblé de rua do mundo, realizado em Santo Amaro, na Bahia. A escola de Nilópolis será a segunda a desfilar na noite da próxima segunda-feira, dia 16.
A Beija-Flor de Nilópolis vai ocupar o Sambódromo, com a mesma força simbólica com que o Bembé do Mer-cado ocupa, há mais de um século, as ruas de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano. O enredo da escola propõe uma reflexão sobre a abolição da escravidão no Brasil, formalizada sem políticas de reparação, e apresenta a ocupação cultural como forma histórica de autorreparação do povo negro.
Inspirado na tradicional celebração realizada anualmente no dia 13 de maio por casas de candomblé, o desfile destacará a resistência reli- giosa, cultural e social que mar-cou o pós-abolição. Segundo a sinopse da escola, a liberdade plena só se concretiza quando há espaço para existir, manifestar a fé, preservar costumes e afirmar identidades.
Segundo o carnavalesco João Vitor Araújo, o enredo mantém a identidade histórica da azul e branca de Nilópolis, conhecida por narrativas fortes ligadas à ancestrali-dade preta. Campeã em 2025 com a homenagem a Laíla, a Beija-Flor decidiu dar continuidade ao diálogo com os ancestrais. “Era uma história grande demais para se encerrar apenas no resultado do desfile. Esse enredo nasce da necessidade de continuidade”, disse.
Criado em 1889, um ano após a assinatura da Lei Áurea, o Bembé do Mercado surgiu como resposta direta à exclusão social e religiosa da população negra. A manifestação ocupa o espaço público como afirmação do candomblé e da cultura afro-brasi- leira, reunindo terreiros, líderes religiosos e comunidades tradicionais.
O enredo mostrará ao público da avenida que a luta por liberdade vai além da legislação e passa pelo direito à expressão cultural, à culinária ancestral, à música, à dança e à fé. A celebração do Bembé atravessa gerações, desde o babalorixá João de Obá, passando por Pai Tidu e Mãe Lídia, até chegar a Pai Pote, atual presidente da associação que organiza a manifestação. Hoje, o Bembé reúne oficialmente 65 terreiros, além de outros cem que participam da festa.
Além da religiosidade, o desfile abordará expressões da cultura popular ligadas ao Bembé, como a culinária afro-brasileira, o trabalho das marisqueiras e farinheiras, a capoeira, o Negro Fugido e a presença dos feirantes. O enredo foi dividido em seis setores, cada um represen- tando um dia de celebração, com início e encerramento marcados pela cor branca e pelo elemento água.
Para garantir o respeito ao caráter sagrado do tema, a escola buscou autorização espiritual antes de definir a narrativa. A setorização do desfile foi aprovada em um jogo de búzios realizado por Pai Pote, aos pés de Ogum. “O desafio é carnavalizar sem cair em clichês ou desrespeito. É um enredo sério, que exige muito cuidado”, explicou o carnavalesco.
João Vitor também ressaltou a aceitação do tema pela comunidade de Nilópolis, considerada essencial para o desempenho da escola na avenida. “No dia do desfile, a sinopse são os componentes. São eles que cantam, que sustentam o enredo”, disse.
O desfile de 2026 marca ainda um novo momento na história da escola, quando a responsabilidade por “puxar” o samba-enredo será dividida entre Nino Milênio e Jéssica Martin.
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